domingo, setembro 24, 2006

Judeu

"O homem põe e Deus dispõe" – diz o nosso ditado.

Há dois dias escrevi aqui que tinha um tema à frente da lista, para escrever sobre ele, e adiei-o para dar preferência ao Calendário, que se apresentava como oportuno.
Afinal também não vai desta vez.
Quem escreve, sabe como eu que é assim: nós não escolhemos os temas; eles é que nos escolhem, a nós, e se apresentam, pedindo, por vezes insistindo mesmo, para escrevermos sobre eles. É uma espécie de "Providência" dos que passam a vida, ou grande parte dela, a fustigar o teclado.
Com grande surpresa minha – e com a ajuda amiga do Nuno Guerreiro, de "Rua da Judiaria" e outros amigos – este blog já excedeu em 9 dias o meio milhar de visitantes.

Muitos dezes visitantes me têm encorajado com comentários, com alguns dos quais já aprendi mais. Não sei ainda como lhes agradecer directamente, pois chegam-me com endereços que não permitem resposta.

Há um, porém, muito especial, que serviu, desta vez de "mensageiro da Providência", enviando um comentário, curto e singelo, que implicitamente "pede para ser tratado".
Assina-se o amável visitante "Acoral" e as poucas palavras, que me escreveu dizem muito: "Mais judeus na net!!!!"

Primeiro - embora o meu blog não se destine especialmente a visitantes judeus, é simpático, da parte deste visitante, salientar a minha filiação religiosa, de que evidentemente muito me orgulho.
Segundo - sou levado a admitir que o fez por um impulso de confraternização, talvez por se considerar também judeu, o que me não surpreenderia, porque é um "estigma" de que se queixam ou regozijam muitos portugueses. Por isso também aqui o saúdo.
Há outro ditado português, com algumas variantes, que diz que "de preto, de judeu e de mouro, todos temos um pouco".
Se considerarmos que em 1496, de cada cinco portugueses um era judeu, temos que D. Manuel I, cuja intenção talvez tenha sido expulsar os judeus de Portugal (talvez, repito!), mas – cá vem novamente o "O homem põe e Deus dispõe" – o que conseguiu afinal foi entranhar o judaísmo entre os portugueses.
Poderia ainda comentar o papel relevante da Inquisição em propagar o cripto-judaísmo em Portugal, e as 11 famílias "puritanas" da legislação pombalina. Mas não são estes os temas deste blog. Tudo isto apenas para renovar os meus agradecimentos ao visitante senhor Acoral, que aqui será sempre bem-vindo, por me sugerir o tema "Judeu".

Diz o meu dicionário que judeu "é aquele que, ou é natural da Judeia, ou segue os preceitos e ritos da religião judaica; o homem que pratica desumanidades; indivíduo motejador."
A primeira definição veio-nos etimologicamente do latim judaeu, que por sua vez se baseou no hebraico yehudi, que significa pertencente ou descendente da tribo de Yehudah, em português Judah, ou Judas, um dos 12 filhos do patriarca Jacob.
Nos templos bíblicos os judeus eram conhecidos apenas por Hebreus ou por Bnei Israel, ou seja, filhos de Israel, sendo este o segundo nome atribuído ao patriarca Jacob. Depois da morte do rei Salomão, dez das doze tribos separaram-se formando um reino à parte, o Reino de Israel e os seus habitantes eram os Israelitas. As duas restantes tribos, Judah e Levi, formaram o Reino de Judah, cujos habitantes se chamavam Judeus.
O Reino de Israel foi o primeiro a ser destruído e espalhado pelo mundo fora. Ainda hoje aparecem tentativas para identificar este ou aquele povo com os antigos israelitas, mas sem que haja até agora provas conclusivas.
O Reino de Judah subsistiu porque tinha a sua capital em Jerusalém, onde se encontrava o magnífico Templo construído pelo rei Salomão, e esse foi o factor religioso que serviu de catalisador ao pequeno reino, que só deixou de existir quando da conquista de Jerusalém pelos Romanos.
Quando da independência do actual Estado judaico, os seus fundadores hesitaram no nome que lhe haviam de por: "Estado da Judeia" ou "Estado de Israel". Prevaleceu esta última opção.

A segunda e terceira acepções lexicológicas: "homem que pratica desumanidades; indivíduo motejador" entraram na língua portuguesa por via eclesiástica, ou melhor por via de prègadores fanáticos cristãos, que acusavam os judeus da morte de Jesus.
Há por aí muito quem proponha que se decida excluir estas duas definições pejorativas dos dicionários da Língua Portuguesa. Eu sou contra essa proposta, pois a sua exclusão tornaria impossível a interpretação de textos em que a palavra "judeu" está escrita com esses sentidos. É tudo uma questão de educação, e o papel dos dicionários não é educar.

Poderia contar-vos aqui diversos episódios caricatos, de que fui protagonista em Portugal, desde o comerciante da província que se recusou a acreditar que eu era judeu, porque não apresentava os sinais que lhe haviam ensinado (cauda e cornos), até ao ex-estudante de Coimbra que sempre que, nas suas cartas para mim escrevia a palavra "judeu", acrescentava entre parênteses "peço desculpa", passando pela pobre noiva que, no dia do seu casamento, apanhou uma bofetada do tio, por dizer que não servissem ao senhor Inácio carne de porco, "porque ele é judeu". Como se atreveu ela a chamar uma coisa dessas ao convidado da família?

Mas a resposta mais expressiva que ouvi, pela sua candidez, e pelo significado que ela queria dar a cada palavra, foi de uma mulher simples, no "Bairro de Baixo", em Argozelo, conhecido por ser habitado exclusivamente por descendentes endogâmicos dos judeus forçados à conversão. E que, evidentemente, apesar de apontados a dedo pelo resto da população, ainda muitos o negam:

"Eu não sou judia, mas, se o fosse, não o negava, porque até Deus, antes de ser português, foi judeu".

Isto não diz tanta coisa?"

Resta-me tentar esclarecer aqui um erro semântico que surgiu em Portugal nas últimas três décadas.
Quando se constituiu a primeira Comunidade judaica em Portugal do século XIX, foi decidido evitar o termo "judaica", que para muitos ainda tinha apenas o sentido pejorativo e optar por Comunidade Israelita de Lisboa. Era de bom tom, de boa educação, referir-se aos indivíduos de religião judaica como israelitas e não como judeus. (Curiosamente os cripto-judeus, que continuavam a viver semi-segregados nas aldeias portuguesas, foram sempre chamados "judeus").
O mesmo fizeram os do Porto, ao fundar a "Comunidade Israelita do Porto". A primeira comunidade a usar o nome certo foi a "Comunidade Judaica de Belmonte", cujos membros, apesar da Inquisição, mantiveram a sua tradição judaica, no íntimo dos seus lares, durante quase cinco séculos.
E, só por ironia do destino, não posso deixar de salientar, que os cristãos-novos portugueses, que se estabeleceram no sul da França nos séculos XVII e XVIII eram conhecidos por "Messieurs les portugais" . Português como sinónimo de judeu.

Quando foi criado o Estado de Israel, parecia lógico que os seus habitantes fossem designados em português por "israelitas". Mas o termo já estava tomado para os portugueses de religião judaica.
No Brasil encontraram a solução adoptando para aqueles o termo "israelense". Em Portugal, não sei porque birra, adoptou-se a designação de "israeliano", a qual, até onde eu percebo de derivação, não faz muito sentido. Mas esta foi a designação usada pela imprensa portuguesa entre 1948 e cerca de 1980. A partir daí, alguém cometeu o erro de chamar "israelitas" tanto aos judeus como as habitantes de Israel. E o uso pegou.

A Sociedade da Língua Portuguesa confirma-me que é um erro e que se deveria fazer um esforço na imprensa portuguesa para corrigir esse erro. Mas quem? Já deve ser tarde.

Como jornalista, sinto um certo embaraço quando tenho que referir-me a alguém como "árabe cristão israelita", mas é a definição exacta de dezenas de milhares de cidadãos de Israel, e não lhes posso chamar "árabes cristãos israelianos", porque as redacções não o aceitariam.

11 Comments:

Anonymous Manuel Moura said...

... desde o comerciante da província ...até ao ex-estudante de Coimbra ... passando pela pobre noiva ...

Mas que historias tao fascinantes ! Que blog fascinante! E com a qualidade da escrita do Inacio, e mesmo um prazer de leitura ficar colado ao ecran do computador. Isto sao das tais coisas que so mesmo contadas em portugues ...

... "Eu não sou judia, mas, se o fosse, não o negava, porque até Deus, antes de ser português, foi judeu". Isto não diz tanta coisa? ..."

Delicioso ! Simplesmente delicioso

... Poderia contar-vos aqui diversos episódios caricatos, de que fui protagonista em Portugal, ...

Conte mais, conte mais ! O meu amigo tem coisas tao interessantes para contar, e mesmo a precisarem de trocarem o po dos arquivos pela Internet. Ja "perdi" umas boas horas agarrado aos seus artigos em Ingles e Portugues que recentemente (via ruadajudiaria.com e muito google ) descobri na sua (antiga ?) pagina do geocities.com.

Acredite que como eu existem muitos outros portugueses espalhados pelo mundo , e que, apesar de cultos, interessados e valorizarem a Educacao, nao vem a RTPinternacional, nao leem o Expresso e acham 99% dos "comentadores", das actualidades nacionais, e da blogosphera portuguesa aborrecida, mesquinha, infantil e sempre uns meses atrasada.

Para estas pessoas, encontrar paginas na Internet como a sua, ler estas historias sobre o pais natal, e uma reconciliacao emocionante com a lingua materna e uma das razoes para nao perder de todo o contacto com Portugal.

Ainda para mais porque se ainda vivesse em Portugal continuaria ainda hoje sem fazer a minima ideia, sem nunca ter sabido, sem nunca ter ouvido, sem nunca ter falado, sem nunca ter sido ensinado na Escola, ou ganho interesse e curiosidade por uma boa parte da historia do pais em que nasci e da minha propria alma e identidade.

Eu ja tinha ouvido o nome do Inacio Steinhardt ha uns anos atras quando eu vivia em Portugal. Nao me lembro onde. Mas sempre pensei que o meu amigo fosse um alemao ou espanhol (...ok nao me batam mais) a viver em Portugal.


Parabens por este blog interessantissimo.


Manuel Moura

4:57 da manhã  
Anonymous Manuel Moura said...

"Discos Pedidos" havia dantes. Espero que aceite "Blogs Pedidos", e aqui vai um dos meus:

Recentemente descobri aquela historia dos portugueses (e espanhois tambem) que emigraram, (que e como quem diz, salvaram o pelo da Inquisicao) para Israel no seculo 16, no tempo do dominio do Imperio Otomano.

Em especial para a cidade de Safed, onde foi fundada a primeira tipografia do Medio Oriente.

Ja li parte dos relatos do frei portugues Pantaleao de Aveiro e algumas passagens do Eca de Queiroz e das suas viagens. Li tambem algures algo sobre o significado especial desta cidade no cabalismo misticismo judaicos. Mas percebo pouco disto.

Sobre tipografos, sobre Amsterdam e sobre Hamburgo, ja tenho eu lido bastante. E ate mesmo sobre Tessalonicas, Sarajevos, Surinames e Goas.

Agora desta sobre Safed e Israel no seculo 16, confesso que nao fazia a minima ideia.

Que historia fascinante. Que cidade fascinante. Gostava de saber mais sobre as vidas destas pessoas e desta cidade (e de outras com semelhante historia em Israel).

Eu, por mais que googlasse, e no meu amadorismo, poucos resultados obtive.

De cada vez que se poe a palavra "portuguese" ou "portugal", junto com "Safed", "Palestine", "diaspora", "Sephardic" etc... os resultados esfumacam-se logo . O significado actual de "sefardita", esta completamente corrompido do significado original, tanto em ingles como no hebraico moderno.

Os grupos de discussao e listas de email em ingles mantidos pela Rufina Mausenbaum e outros sao povoados por muitas almas perdidas em fantasias e um bocado pimba de mais para o meu gosto.

Quanto a procurar paginas escritas em portugues, nem vale a pena tentar.

Precisamos de um "Meyer Kayserling" para o seculo 21. Ainda ha-de aparecer um, em portugues.


Bem sei que escreve este blog porque:

...Entre muitas outras coisas, gosto de aprender e coleccionar a história das palavras e a sua evolução. Foi nessa intenção que criei este blog....

Mas como o Inacio e' tambem cidadao de Israel, ja vive ai faz algum tempo e e' jornalista, aposto que deve falar fluentemente hebraico e ter facil acesso a arquivos e museus . E tenho a certeza absoluta que nao iriam faltar outros interessados. Como viu, comecou o seu blog faz pouco tempo e ja:

...Com grande surpresa minha – e com a ajuda amiga do Nuno Guerreiro, de "Rua da Judiaria" e outros amigos – este blog já excedeu em 9 dias o meio milhar de visitantes

Nao se admire. Faz-me lembrar aquela historia da XFM uma radio independente que existiu em Lisboa nos anos 90. Muitas coisas se pensa em Portugal que nao sao populares, nao despertam o interesse do povo, ou "sao para as elites, nao sao comercialmente viaveis, so interessam a meia duzia de gatos pingados". E vai-se a ver e la esta' aquela "imensa minoria" com uma parte da alma inexplicavelmente avida e sedenta por escutar. Uma alma que as vezes nem sabe muito bem porque e' que se interessa e porque e' que certas historias bem antigas lhe soam familiar.

Mas e' esta mesma "imensa minoria" que faz com que um site em portugues com as hereticas palavras "rua da judiaria" no nome, onde nao se fala nem de futebol, nem se critica o patrao ou o governo pelas costas, nem discute musica pimba nem fado, nao se fala de bacalhau ou comezainas, nem dos descobrimentos, nem do "humanismo", nem da "grandeza" dos portugueses, e que e' escrito por um jornalista que nem sequer vive em Portugal, tenha mais de um milhao de visitas a cada 3 meses. (http://www.alexa.com/data/details/main?q=&url=www.ruadajudiaria.com/ )

Deixo tambem uma sugestao ao Inacio e a todos com blogs interessantes em portugues.

Use, www.wordpress.com , em vez de, www.blogger.com , para organizar o seu blog.

Apesar de pouco conhecido e raramente usado por blogs portugueses, e' gratis, e' popular entre bloggers profissionais, usa standards bem divulgados, e e' facil de utilizar.

Tecnicamente e' um servico muito melhor e permitindo organizar categorias, subcategorias, tags e paginas especiais com colecoes para os seus artigos antigos.

Para quem tem montes de informacao antiga para organizar num sitio so, parece-me ideal. Se reparar com atencao, e' esta aplicacao o "motor" do www.ruadajudiaria.com. E last but not least, quando cria o seu blog pela primeira vez, existe uma opcao para importar o seu blog antigo do blogger.com automaticamente. Esforco 0, trabalho perfeito.

Pode fazer um teste com www.o-meu-blog-teste.wordpress.com e vai ver que nao perde nada.



Manuel Moura

6:11 da manhã  
Blogger al cardoso said...

Um texto muito interessante, como tudo quanto escreve.

8:01 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Felicito-o pela qualidade e interesse do conteúdo do texto.

J.M.

11:33 da manhã  
Blogger Marco said...

Inácio,
Quando li o seu blog pela primeira vez pensei imediatamente "Mais um português da diáspora! O blog deve ser interessante..." Além disso o seu nome já me era familiar (creio que da rádio).

Depois de ler este post, não resito a colocar-lhe uma pergunta: como se vê a si próprio? Ou se quiser, o que considera mais importante na sua identificação enquanto pessoa? Você é um Português? Um Judeu? Um judeu português?

Se a pergunta for demasiado pessoal e preferir não responder, eu entendo.

1:10 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

O Marco, cuidado, porque olhe que se vamos contar "aos outros" que encontramos um blog interessante na net, e "identificamos" o sr.Inacio como "um judeu", ainda nos aparece um tio da familia a querer-nos dar um estalo.

Ca para mim era por isso que aquele do
senhor Acoral
ja estava tao aflito.




(Nao leve a mal o comentario, estou so a brincar consigo )

7:04 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Já repararam que Acoral dá, no inverso Laroca ?
Está esclarecido: é um caso de fome.
Se fosse de matéria,umas batatinhas ou flocos, resolviam o assunto.
Infelizmente é espiritual...
EMMF

2:25 da manhã  
Blogger marcia helena said...

Olá Inácio
Me chamo marcia e sou do Brasil. Tenho uma irmã que frequenta a comunidade judaica e está estudando o torá(acho que se escreve assim, desculpe se não for).Ela é muito bonita e está sozinha. Gostaria de saber se vc pode me dizer onde ela pode conhecer judeus (homens e mulheres)solteiros para fazer amizades, já que ela faz uma cerimônia às sextas-feiras(que não sei o nome) e lamenta não ter outras pessoas da mesma religião para compartilhar com ela.
A pessoa que iniciou ela na religião (D.Ana) mora na Alemanha e minha irmã se apaixonou pela religião judaica quando esteve lá.

Um abraço,

Márcia

2:46 da tarde  
Blogger A7 Seven Representações Empreendimentos said...

Este comentário foi removido pelo autor.

8:40 da tarde  
Blogger A7 Promoter Eventos e Promoções said...

Porque, não continuo-se usando o termo hebreu como esta na TORAH, que é descendente de Heber parte que gerou a nosso pai Avrahan.

Zachariah Yashurun

8:46 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Porque, não continuo-se usando o termo hebreu como esta na TORAH, que é descendente de Heber parte que gerou a nosso pai Avrahan.

Zachariah Yashurun

8:56 da tarde  

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